CONVERSA COM MÃE STELA DO AXÉ OPÔ AFONJÁ.

Teologia, dogmas, doutrinas do Candomblé

Aula inaugural na Faculdade de Educação

da Universidade Federal da Bahia, proferida

por Mãe Stella no dia 05 de abril de 2001.

Eu sou “Maria Stella de Azevedo Santos”, conhecida como “Mãe Stella de Oxossi”, a quinta Iyalorixá do “Ilê Axé Opô Afonjá” desde 1976, comunidade religiosa fundada por “Dona Eugenia Anna dos Santos”, em 1910. Vou começar esta minha explanação com uma saudação aos Orixás, para que tudo saia a contento.

Eu acredito e professo a Religião dos Orixás. A crença nos Orixás é uma ‘religião composta de ‘Teologia, Liturgia e dogmas’. A Teologia visa não só o estudo do Orixá, como a experiência que temos da divindade em nossas vidas. A Liturgia compreende todos os ritos existentes na referida religião: ritos, cânticos, coreografia. Existem ritos públicos e ritos secretos, nos quais só participam os iniciados. Os dogmas são os pontos que sustentam a própria doutrina. Servem de alicerce para a compreensão da essência de nossa tradição religiosa.

Para saber melhor sobre a Religião dos Orixás temos que tomar conhecimento do nosso Criador- Olórun que, com o auxílio de Odudua e Obatalá criou todos seres vivos existentes no “Ayê”- a terra- e também deu atributos específicos aos Orixás.

Temos um Deus. Os Orixás são seres auxiliares. Por intermédio de nossa Liturgia despertamos as energias desses Orixás, os quais dão respostas às nossas carências.  

Algumas pessoas apenas cultuam os Orixás, enquanto outras são iniciadas, vindo a compor o corpo de sacerdotes e sacerdotisas desta tradição religiosa tão antiga.

A nossa religião valoriza a natureza. Orixá é força vital, correspondente aos elementos da natureza: água, terra, fogo e ar.

Os seres vivos são formados por partículas de cada um desses elementos. Por isso temos conosco uma partícula. de cada Orixá infusa em nós mesmos. Isso independe de etnia, condição social e até de credo.

Exemplifico. O ar é elemento essencial à vida. Temos a respiração, o emi. A água, também fonte de vida, nos hidrata e está presente em nosso organismo: suores, lágrimas, saliva, etc. O fogo, que é vida, por excelência, está presente em nossa temperatura, nas emoções, no calor. Corpo sem calor é corpo sem vida. Podemos comparar nossa pele, carne, ossos, dentes e cabelos à terra, fonte primeira de vida.

Temos dois conceitos de cabeça. O conceito físico e o espiritual: Orí. Em nossa tradição se diz: - "a cabeça é que segura o corpo”. Com efeito. Se alguém não está com o orí fortalecido, nada no corpo deste alguém poderá estar bem.

Mal estar e pensamentos negativos são o que mais nos abate, nos deprime.

Quem está na Universidade deve conservar bem seu orí principalmente os calouros, que estão começando uma nova vida de estudos. Todos vocês têm a expectativa de progredir na escola, de vir a ser um bom profissional, uma pessoa financeiramente suficiente. Às vezes essa expectativa não é correspondida. Não porque vocês sejam incapazes. É porque cada ser humano tem a forma. de perceber, de sentir, e de aceitar a própria existência.

Nas horas difíceis, de adversidades, devemos pedir ao Transcendente que nos dê compreensão. Devemos auxiliar os outros, de acordo com nossas convicções e possibilidades. Devemos escutar quem precisa ser ouvido. Devemos ter a certeza de que existe um Ser Supremo que nos ajuda a lutar e vencer, se pedirmos auxilio e quisermos ouvir. Isso tudo é independente de crença religiosa.

Eu, Iyá Stella, acredito na Religião que professo: a Religião dos Orixás. Sei que Olodumarê fabricou meu orí, atribuindo-me vida. Olórun e os Orixás determinaram o meu destino.

O destino não se muda, mas se trabalha através de preceitos e oferendas. Aproveita-se o lado positivo de cada destino, que em si mesmo não é bom nem mau. Ele é tal qual existe. Questiona-se como pode ser aproveitado o lado positivo. Digo que pode ser aproveitado por intermédio da educação em seus vários aspectos: tanto civil como religiosa.

De acordo com a Religião dos Orixás, a profissão que cada um de vocês escolheu faz parte do odu- caminho. Muita coisa é livre arbítrio. Devemos ficar atentos às opções que fazemos na vida.

Quando estamos, ainda, na condição de embriões, Olodumarê chama em espírito o nascituro, leva a um recinto e manda que escolha o próprio orí. Existe livre arbítrio na escolha. Muitos apressados chegam lá e apanham o primeiro que encontram. Outros são meticulosos na escolha. Alguns, mais ou menos... Orí e Orixá formam o destino do ser humano. Um orí imperfeito sobrecarrega o Orixá e o resultado é um destino conturbado. A escolha do orí explica os diferentes temperamentos e a sina de cada indivíduo. Daí depreende-se que o destino é uma coisa que não se muda, mas que se lapida. Não devemos nos entregar ao destino. Na condição de seres novos, que somos, devemos melhorá-lo.

Ainda que não cultue, todo mundo tem um Orixá, chamado popularmente de anjo da guarda e protetor.

Devemos nos apegar a qualquer energia positiva. Devemos rezar, ter oração, seja em qualquer tradição religiosa que for.

Não devemos misturar religião, para não cairmos em práticas sincréticas e atropeladas.

O chamado sincretismo de justaposição foi uma tática utilizada para. a sobrevivência da crença menos poderosa, por não ser ligada ao Poder. Hoje em dia, num Estado desvinculado de qualquer religião oficial, a partir da proclamação da República, falar em sincretismo por motivos de sobrevivência toma-se anacrônico, mas vou relembrar o passado sofrido.

Há alguns séculos, quando descobriram que a mão-de-obra africana seria ideal para o fortalecimento da Economia do Novo Mundo, o negro foi trazido para as Américas, em especial para o Brasil, na condição jurídica de coisa rés, propriedade de um outro ser humano, este, sim, possuidor de uma alma, de direitos e deveres.

O escravo era um animal diferente, no conceito dominante da época.

Contudo, o africano trouxe consigo sua fé, que permaneceu firme, apesar de ele ter sido batizado em uma outra crença desconhecida, de ter trocado de nome, de hábitos alimentares, de vestimentas.

A fé sobreviveu imaculada e o negro e seus descendentes se aproveitava dos feriados religiosos dos cidadãos para praticar seus cultos. Com o tempo, foram se organizando, adquirindo terras, fundando comunidades religiosas e irmandades paralelas.

Hoje em dia a liberdade de pensamento e crença é possível para todos, não mais havendo justificativa inteligente para as práticas sincréticas, que infelizmente ainda existem como forma de manipulação do mais fraco, que nada mais é do que o chamado afro-brasileiro, ou afro-descendente, como preferem alguns.

Outro dia eu soube por fontes fidedignas que em uma missa celebrada aqui em Salvador uma mulher vestida com as roupas do orixá Oxum fez parte do ritual de ofertório. Fiquei chocada. Os Liturgistas responsáveis por aquela missa estão pegando um bonde muito errado. Chega a dar vontade de chorar a ingenuidade de lideranças de cultos afro-brasileiros que vejam isso com bons olhos. Lembra-me a música que diz: - "O tio Sam mandou, botar Wiskey na feijoada..... "

Existem pessoas que vão à missa e aos candomblés. Fé não se discute. Todos têm direito à busca espiritual sincera. Isso nada tem a ver com sincretismo de justaposição. Afinal, as pessoas acreditam no que acreditam. Essa gente um dia se encontra.

A carência, da Humanidade em uma época de tanta desolação que é este início do século XXI leva as pessoas para buscas maiores. Elas têm sedes de águas não tão conhecidas, ou até querem buscar novas interpretações para o que aprenderam até então. As pessoas querem ser livres de amarras e culpas impostas por dogmas muitas vezes ultrapassados.

Para a Religião dos Orixás não existe raça, nem situação social, nem financeira. Existe, sim, o amor eterno à Vida.

 

Muito obrigada,

Que Xangô e Odé abençoem a todos vocês.

Maria Stella de Azevedo Santos