A Morte do Pai-de-Santo

Implicações e dificuldades para a continuidade dos terreiros de candomblé.

 fonte: Rita Amaral

A morte é, sem dúvida, para todos os grupos e para todas as sociedades, um evento desestruturante. Não só pela perda das pessoas queridas, mas também porque deixa vago, na estrutura familiar, social, grupal etc., um espaço nem sempre preenchível, principalmente em termos da relação particular do indivíduo que morre com os outros. Ainda que seu "lugar" venha a ser ocupado por algum "substituto", o conteúdo das relações nem sempre ou quase nunca pode permanecer inalterado. Para o candomblé, a morte pode ser bastante mais complexa, especialmente quando se trata da morte de um chefe de terreiro . As várias mortes de pais-de-santo ocorridas recentemente em São Paulo demonstram isto e levantam algumas questões sobre esta problemática que devem ser discutidas e eu gostaria de dar um primeiro impulso a esta discussão.

O primeiro problema  diz respeito às questões rituais. No candomblé acredita-se que o morto, quando ainda recentemente falecido, pode causar perturbações aos vivos, seja porque se sente ainda ligado aos que amou, seja porque deseja ser ajudado a desvencilhar-se dos vínculos com o mundo material. Há também a questão de que o orixá que foi assentado na cabeça do iniciado falecido (e em representações materiais), deve ser "libertado" para que possa retornar à "energia natural" da qual, na forma de um orixá particular, era apenas um avatar, uma "qualidade", uma fração. Por este motivo é realizado o ritual denominado axexê, ou cirrum, que visa "despachar o egun", isto é, libertar os espírito das relações com o mundo dos vivos e "encaminhá-lo" ao mundo dos mortos,  livrando também o orixá.

A maioria dos adeptos do candomblé não sabe explicar, contudo, o que seja este "mundo dos mortos". Muitos dizem mesmo que depois da morte não existe nada. "Morreu, morreu. Acabou".

Este desconhecimento, e também um certo "desinteresse" pelo que se passaria no pós-morte leva o povo-de-santo a pelo menos duas diferentes atitudes:

1.  A morte e o morto são entregues à religião hegemônica, no caso o catolicismo, que se encarrega de ritualizá-la através do enterro católico, orações, missa de sétimo dia etc. Quando se trata de um iaô, os assentamentos costumam ser simplesmente "despachados" (geralmente jogados num rio ou num cemitério) com cerimônias menores;

2.  É realizado o axexê, a cerimônia funeral do candomblé, dedicada em geral apenas aos ebomis que têm filhos-de-santo. Neste caso o ritual se torna imprescindível e é exigido tanto pelas famílias-de-santo quanto pela comunidade do povo-de-santo em geral. Estabelece-se assim uma diferenciação das pessoas também diante da morte causando um certo estranhamento o fato de iniciados não-ebomis não necessitarem do axexê para libertarem seus orixás e seus vínculos com a família-de-santo. Mas existem razões para que as coisas se passem assim.

A realização do axexê, uma grande e trabalhosa cerimônia tem sido reservada apenas para chefes de terreiro não só pela grande quantidade de vínculos (com seu pai-de-santo, seus irmãos-de-santo, filhos-de-santo, netos-de-santo, sua família carnal etc.) que estes mantêm mas também pelos grandes obstáculos que devem ser vencidos antes de sua efetuação. Um deles é a falta de sacerdotes com conhecimento suficiente para realizar o axexê. Sendo uma religião mágica, o processo ritual, os detalhes, as "fórmulas" mágicas são sempre motivo de extremado cuidado, medo e desconfiança. Qualquer mínimo erro, descuido ou engano pode ser a fonte de grandes desgostos e problemas. Principalmente quando se lida com o absoluto desconhecido que é a morte.

Assim, poucos são os sacerdotes que se "arriscam" a realizar o axexê, preferindo entregá-lo aos mais antigos sacerdotes, mesmo pagando um alto preço por seus serviços religiosos. Como a realização desta cerimônia tem se revelado bastante lucrativa, aqueles que a conhecem profundamente têm evitado ensiná-las até mesmo aos seus próprios filhos-de-santo mantendo, desse modo, o "monopólio" do conhecimento religioso. Os especialistas em axexê, em São Paulo, cobram em média 1000 dólares para realizá-lo. E não é fácil, para os grupos de filhos dos terreiros, conseguir este dinheiro e até mesmo superar questões como "quem vai realizar o axexê, de que modo, quando, por quanto etc.", pois a morte do chefe de um terreiro gera situações gravemente desestruturantes.

Estas situações chegam mesmo a colocar em risco a continuidade da casa-de-santo, pois surgem muitas dúvidas: quem seria o sacerdote mais indicado para realizar o axexê? Quem será o novo ou “nova” chefe do terreiro? A casa continuará e o indivíduo permanecerá nela, ou fechará (o que é mais comum) e o filho de santo precisará ser adotado por outra casa, devendo, neste caso, reestruturar toda sua vida religiosa?. Caso a casa seja extinta, quem adotará os filhos-de-santo do morto, cuidando de seus orixás? Muita gente, especialmente ogãs e ekedes, fica sem rumo, sem saber o que fazer de sua vida religiosa: “Eu sou ekede do Orixá “Obaluaye”; - Fui suspensa pra ser ekede dele; - Assentei minha Iansã pra ser ekede dele. Agora que ele morreu, o que é que eu faço? Pra que terreiro eu vou? Vou como ekede? Mas de quem? De Iansã? Mas não foi ela que me suspendeu! Eu não sei o que fazer da minha vida nem pra onde levar meu assentamento" (Telma de Iansã, 14 anos de iniciada).

Além do axexê, que rompe os laços do homem com o orixá e com o mundo dos vivos é preciso ainda que o filho-de-santo rompa seu laço individual com o morto, através da cerimônia de "tirar a mão de vume", que consiste em apagar a marca do pai-de-santo na cabeça do filho, impondo-lhe outra, nova, de um novo pai ou mãe-de-santo. Mas antes de qualquer outra coisa é preciso realizar o axexê do pai-de-santo, sem o qual todos os outros procedimentos ficam impedidos.

Para tanto, é preciso que haja, imediatamente após a morte do chefe da casa, a cotização da família-de-santo para financiar a cerimônia do axexê. Sendo uma soma tão alta (especialmente para o povo-de-santo, formado por gente pobre em sua maior parte), essa cotização pode desestruturar a vida financeira dos filhos, que precisam contribuir para que se consiga pagar o sacerdote que realizará a cerimônia e para a compra do material necessário, também bastante caro, quase outros mil dólares. Muitas vezes os filhos-de-santo recorrem a estranhos, clientes do pai-de-santo, vendem móveis, objetos e outras coisas do terreiro, pedem às lojas de artigos religiosos onde o pai-de-santo comprava material para sua casa que forneçam pelo menos parte do material, fazem listas, rifas etc. Tudo isto tem que ser feito em prazo muito curto e nem sempre é possível realizar o axexê no devido tempo. E os "especialistas" não costumam baixar seus preços. Na melhor das hipóteses podem parcelar em duas vezes seus honorários. Muitas vezes nem mesmo permitem que os interessados comprem o material do ritual (encarregando-se eles próprios disto), temendo que o fornecimento da lista seja um primeiro passo para a quebra do "segredo".

vê-se que um problema gera outro. A falta de sacerdotes que conheçam o ritual (poucas vezes ensinados, sejamos justos) cria um monopólio de "conhecedores" bastante restrito que, por sua vez põem um preço altíssimo em seus serviços, criando dificuldades econômicas que poucas vezes podem ser superadas a contento pelos filhos-de-santo. Com isso, realizam-se cada vez menos axexês e tais especialistas correm o risco de, em médio prazo, verem seus serviços se tornarem desnecessários com a extinção desse rito no candomblé, o que parece já estar acontecendo. Talvez estes  "conhecedores", "especialistas", não tenham quem "bata” seu próprio axexê por falta de quem possa fazê-lo.

Suponhamos, para continuar nosso assunto, que o terreiro consiga passar pelas dificuldades do axexê. Que consiga realizá-lo. Surge então um outro problema: a sucessão da chefia da casa de candomblé. As sucessões são geralmente bastante conflituosas, pois teoricamente vários são os candidatos a ela, mais ainda se a casa tem muitos ebomis. Na maioria das vezes existem ainda os descendentes carnais também iniciados que se julgam herdeiros preferenciais. Como a resolução passa pela consulta ao oráculo dos búzios e esta só pode ser feita depois de realizado o axexê, arma-se uma rede de problemas, pois o tempo passa, os conflitos se definem em facções, acirram-se e muita gente abandona o terreiro ou briga ferozmente por sua continuidade que passa a ser, então, muito questionada em função dos conflitos gerados pela morte do líder da casa.

Intromissões de gente de outros terreiros, ligadas por vínculos do parentesco religioso também são bastante comum.

Existe ainda a questão legal. Muitos pais e mães-de-santo paulistas, para usá-los como exemplo, são pessoas solteiras e sem filhos, portanto sem herdeiros diretos. Com a morte, seus bens (inclusive o terreno e o prédio onde se instala o terreiro, se este é de sua propriedade) entram no inventário obrigatório para que seja efetuada a partilha de bens entre os herdeiros legais como o pai, a mãe, irmãos, sobrinhos etc. Como os chefes de terreiro costumam manter a propriedade em seu nome (apesar de manterem os registros dos terreiros como sociedades civis), mais um problema se põe para a continuidade do terreiro. Porque geralmente os familiares que não fazem parte do candomblé desejam vender o imóvel, dando fim, desse modo, ao terreiro. É praticamente impossível ultrapassar este obstáculo. Em São Paulo, até onde sei, apenas no caso de um único terreiro, o Axé Ilê Obá, herdado por uma sobrinha iniciada de pai Caio de Xangô, mãe Sylvia de Oxalá, foi possível dar continuidade às atividades religiosas , depois de passar por todos os estágios anteriores de problemas que já mencionei.

Penso que o crescimento do candomblé obriga a pensar mais detidamente tais questões. Os sacerdotes que conhecem o axexê não poderiam (ou deveriam) pensar em ensiná-lo a seus filhos e outros interessados? Não poderiam diminuir sua ganância cobrando menos ou então de acordo com as reais possibilidades de custeio dos filhos de uma casa? Os chefes de terreiro não poderiam indicar em vida seus possíveis sucessores? Não poderiam registrar o imóvel de uso religioso como bem da Associação, a fim de retirá-lo do alcance de herdeiros não envolvidos com a religião, garantindo dessa forma, minimamente, a continuidade de algo por que tanto lutou e viveu? Apresento ainda mais uma questão: qual o papel das Federações de candomblé nestes momentos, cruciais para os terreiros? Elas não poderiam minorar os problemas se mantivessem sacerdotes conhecedores do rito do axexê dispostos a realizar estas cerimônias, se não gratuitamente, pelo menos por preços mais acessíveis? Para que servem estas Federações? Qual seu papel junto ao candomblé e aos candomblés. De que modo aplica os recursos que têm?

Seja como for, apesar de o candomblé ser sinônimo de festa, de alegria, de vida, por isso mesmo ele está ameaçado pela morte. Talvez seja tempo de admiti-la e pensá-la para poder continuar vivendo.